A água potável no Brasil vai acabar?
Essa pergunta provocativa é o ponto de partida do novo estudo do Instituto Trata Brasil, em parceria com a EX ANTE Consultoria. Intitulado “Demanda Futura por Água em 2050: Desafios da Eficiência e das Mudanças Climáticas”, o estudo revela dados preocupantes: até 2050, as tendências climáticas indicam uma restrição média na oferta de água de 3,4% ao ano — o equivalente a 12 dias por ano de racionamento no país. Em regiões mais vulneráveis, a seca pode passar de um mês.
Os Números-Chave do Estudo
- Racionamento Médio: 12 dias/ano (restrição de oferta de água de 3,4% na média nacional)
- Racionamento Crítico: > 30 dias/ano (afetará áreas do Nordeste e Centro-Oeste com menor precipitação)
- Demanda por Aquecimento: +12,4% (consumo extra gerado exclusivamente pela alta das temperaturas)
- Aumento Necessário na Produção: +59,3% (necessidade de água tratada mantendo o nível atual de perdas de 40,3%)
O Cenário Atual e os Motores do Consumo nas Cidades
Em 2023, o Brasil consumiu cerca de 10,7 bilhões de m³ de água potável, resultando em uma média diária per capita de 175,38 litros por pessoa (já contabilizando o volume perdido nos sistemas de distribuição).
Para projetar o futuro, os economistas avaliaram quais fatores urbanos e climáticos mais pesam no consumo diário:
- Urbanização: Quanto mais urbana é uma cidade, maior é o consumo. A cada 1 ponto percentual de aumento na população urbana, a demanda por água cresce 0,96%.
- Temperatura Máxima: O calor faz disparar o uso da água. Para cada 1°C a mais na temperatura máxima, a demanda por água cresce 24,9%.
- Umidade e Chuvas: Em cidades tropicais e litorâneas, a maior frequência de chuvas se traduz em maior oferta e consumo per capita. A cada dia adicional de chuva no mês, o consumo/oferta per capita aumenta em 17,4%.
Mudanças Climáticas: A Pressão Extra Sobre os Mananciais
As projeções até 2050 indicam que a temperatura máxima no Brasil subirá cerca de 1°C em relação a 2023, enquanto a mínima subirá 0,47°C. Além disso, haverá uma redução nos dias chuvosos e precipitações mais severas e concentradas.
Essa alteração no clima gera um impacto duplo:
- Mais Sede: O aquecimento isolado fará a demanda crescer 12,4% além dos fatores demográficos e econômicos (uma demanda incremental de 2,113 bilhões de m³/ano).
- Menos Oferta e Aridez: A redução das chuvas intensificará a aridez, ampliando o semiárido brasileiro e trazendo riscos de desertificação no Cerrado e na Caatinga.
Em cidades do Nordeste e do Centro-Oeste, o racionamento poderá ultrapassar 30 dias ao ano, gerando graves consequências para a saúde pública e a qualidade de vida da população.
O Grande Vilão: 7 Bilhões de m³ Desperdiçados na Distribuição
Um dos pontos mais alarmantes do estudo refere-se às perdas de água tratada na rede.
Em 2023, o índice de perdas no Brasil foi de 40,3% — em alguns municípios, esse número supera impressionantes 80% (onde a cada 5 litros produzidos, 4 são perdidos por vazamentos ou ligações clandestinas).
- Em 2023, o Brasil jogou fora mais de 7 bilhões de m³ de água tratada.
- A demanda adicional de consumo necessária até 2050 é calculada em 6,414 bilhões de m³.
Conclusão direta: O volume de água que o Brasil desperdiça hoje em vazamentos e fraudes seria suficiente para cobrir toda a expansão de demanda populacional e econômica até 2050, sem precisar retirar uma única gota a mais dos rios e mananciais!
Se o país conseguir reduzir as perdas para a meta de 25%, a necessidade de produção adicional de água diminuiria em 2,138 bilhões de m³ por ano.
Saneamento Básico é o Verdadeiro Motor do PIB
O estudo da EX ANTE também trouxe dados marcantes sobre o impacto do saneamento na economia local:
- Água tratada para 100% da população: Eleva a taxa de crescimento do PIB per capita em 4,55 pontos percentuais e o salário médio em 0,75 p.p. em comparação com uma cidade sem abastecimento.
- Coleta e Tratamento de Esgoto: A coleta universalizada pode elevar o crescimento do PIB per capita em 0,84 p.p., enquanto o tratamento completo adiciona 1,18 p.p. ao ritmo de expansão do PIB local.
O Recado da Liderança
“Os dados apresentados reforçam a tendência de aumento no consumo de água (…). As tendências climáticas indicam restrição de oferta por escassez em nossos mananciais. Estes dois fatores combinados trazem a urgência de adotarmos medidas imediatas para reduzir as perdas no sistema e planejarmos de forma sustentável a gestão dos nossos recursos hídricos. É fundamental agir agora.”
— Luana Pretto, Presidente Executiva do Instituto Trata Brasil.
O Que Fazer Agora?
Garantir água limpa na torneira em 2050 depende das decisões tomadas hoje. O caminho passa por:
- Redução Acelerada de Perdas: Investimentos prioritários em troca de tubulações velhas e combate a vazamentos e fraudes.
- Aceleração da Universalização: Cumprir o Marco Legal do Saneamento.
- Gestão Climática e Adaptação: Preservação de bacias hidrográficas e recuperação de nascentes.







