Estudiosos da PUC-Rio e da UFRJ desenvolveram um método de simulação inovador; revista Water Science and Technology publicou parte dos resultados
Em artigo publicado na The Conversation e reproduzido no site Terra, Antonio Krishnamurti Beleño de Oliveira, Professor de Engenharia Civil e Ambiental da PUC-Rio, escreve:
“Historicamente, em parte do mundo e especialmente no Brasil, adotou-se o que chamamos de “sistema separador”. Nele, a água da chuva é direcionada para uma rede de drenagem, enquanto os esgotos sanitários são conduzidos por outra via, até estações de tratamento. No papel, essa separação física parece lógica, porém, a realidade urbana é muito mais complexa e misturas imprevistas acabam ocorrendo”.
Ao diferenciar o “no papel” e “a realidade”, o professor toca em um dos aspectos mais universais (e complexos) do esforço de conhecimento humano: o da relação entre teoria e prática. Tanto é verdade que grande nomes da ciência já abordaram o tema.
À Leonardo da Vinci, por exemplo, é atribuída a seguinte frase: “Aquele que se enamora da prática sem a ciência é como o navegador que entra num navio sem timão nem bússola, e nunca tem certeza de onde vai.”
Já à Albert Einstein é atribuída a seguinte ironia: “Teoria é quando se sabe tudo e nada funciona. Prática é quando tudo funciona e ninguém sabe por quê. Neste recinto, conjugamos a teoria com a prática: nada funciona e ninguém sabe por quê.”
Mas, ironias à parte, quem trabalha no setor do saneamento sabe bem que, muitas vezes, “na prática…a teoria é outra…”.
Ora, esse descompasso entre teoria e prática (ou realidade) não deveria nos surpreender tanto, dado o fato de que a mente humana é incapaz de imaginar, levar em conta e abarcar todas as especificidades de uma circunstância real.
Daí a importância de estudos como os de Antonio Krishnamurti. Estudo que acaba por colocar em debate a eficácia do modelo de gestão separada dos sistemas de saneamento nas cidades brasileiras, e apresenta uma nova metodologia de simulação para enfrentar o problema.
Eis alguns dos aspectos levantados pelo estudo, segundo artigo publicado no The Conversation:
- O Problema: A Falha do “Sistema Separador”
Historicamente, o Brasil adota o sistema separador absoluto, onde existem duas redes distintas: uma para águas da chuva (drenagem) e outra para esgoto sanitário. No entanto, a realidade urbana desafia a teoria:
- Défice de cobertura: Apenas 63,2% da população urbana tem acesso à rede de esgoto, e apenas 50,8% do que é coletado é tratado.
- Conexões Indesejadas: Devido a ligações clandestinas ou subdimensionamento, o esgoto acaba na rede de drenagem (poluindo rios e praias) e a água da chuva invade a rede de esgoto (causando extravasamentos e mau cheiro após temporais).
- Gestão Fragmentada: Os dois sistemas são frequentemente geridos por órgãos ou empresas diferentes, o que impede uma visão sistêmica do problema.
- Riscos à Saúde e ao Ambiente
A falta de integração gera o que o autor chama de “sistemas mistos disfuncionais”. Quando chove forte:
- As águas que inundam as ruas estão contaminadas com esgoto doméstico.
- Indicadores de poluição, como a Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO), disparam, degradando corpos hídricos urbanos.
- A população fica exposta a riscos sanitários graves que muitas vezes não são captados pelos indicadores oficiais de cobertura.
- A Pesquisa e a Nova Metodologia
Pesquisadores desenvolveram um método de simulação inovador, publicado na revista Water Science and Technology. A ferramenta modela simultaneamente três camadas:
- Superfície: ruas, lotes e espaços abertos.
- Rede de Drenagem: águas pluviais.
- Rede de Esgotamento: esgoto sanitário.
O estudo utilizou como caso de teste o bairro de Campo Grande, no Rio de Janeiro, onde simulações confirmaram os relatos de moradores sobre transbordamentos contaminados e identificaram os pontos críticos de interação entre as redes.
O estudo ainda terá outras etapas, mas o esforço de, à partir das realidades concretas, calibrar os aspecto teórico (o papel), gerando modelos mais e mais condizentes com os cenários reais dos serviços de saneamento; esse esforço é fundamental para que a realidade do saneamento seja mais e mais conhecida, e as teorias sejam melhor aplicadas.







