Por que o Saneamento é pouco debatido em épocas de eleição?

Você já parou para pensar que, enquanto discutimos propostas tecnológicas e grandes obras de infraestrutura nas campanhas eleitorais, o básico do básico continua enterrado e esquecido? Estamos falando do saneamento básico.

Embora seja uma pauta bilionária e fundamental para a dignidade humana, o acesso à água potável, ao tratamento de esgoto, e à devida gestão dos Resíduos Sólidos e das águas pluviais ainda não têm o protagonismo que merecem nas urnas.

Mas por que um tema tão urgente parece ser “invisível” para a política?

O Retrato de um Brasil que ainda “não se vê”

Os números são alarmantes e mostram que o Brasil ainda vive um desafio do século passado:

  • 43% dos brasileiros vivem sem coleta de esgoto.
  • 16% da população ainda não tem acesso à água potável.
  • Diariamente, mais de 5 mil toneladas de dejetos são despejadas em nossos corpos d’água sem qualquer tratamento.

A Pauta Bilionária

Desde a aprovação do Novo Marco Legal do Saneamento em 2020, o setor passou por uma transformação estrutural. O objetivo é ambicioso: garantir que, até 2033, 99% da população tenha água potável e 90% conte com coleta e tratamento de esgoto.

Em 2024, os investimentos atingiram a marca recorde de R$ 29 bilhões. Estima-se que, para atingir a universalização, o Brasil precise movimentar cerca de R$ 900 bilhões. É um mercado gigante, que gera empregos e movimenta a economia, mas que esbarra em uma barreira cultural e política.

Por que o tema não “rende” votos?

Especialistas apontam que o saneamento sofre de um mal crônico na política brasileira: a falta de visibilidade imediata.

  1. Obras “embaixo da terra”: Diferente de uma praça ou um hospital, as redes de esgoto não são vistas no dia a dia após concluídas.
  2. Longo Prazo: Projetos de saneamento são complexos e muitas vezes ultrapassam o tempo de um mandato de quatro anos. O político que inicia a obra raramente é o que a inaugura.
  3. Complexidade Regional: A nova lei incentiva a regionalização (blocos de municípios), o que exige uma articulação política muito maior entre prefeitos, governadores e a iniciativa privada.

 

Em matéria publicada no site do Senado Federal, o especialista em marketing político e organização de campanhas eleitorais, Deividi Lira, afirma que esse “conjunto de fatores ajuda a explicar por que o tema é pouco discutido durante o período de candidaturas e eleições.

“O saneamento básico ainda ocupa um espaço secundário nos debates eleitorais no Brasil. Apesar de sua relevância para a saúde pública, o meio ambiente e o desenvolvimento econômico, o tema aparece de forma pontual nas campanhas municipais. Nas eleições, geralmente o saneamento básico está inserido em pautas mais amplas, como infraestrutura ou qualidade de vida da população (…) O marketing político muitas vezes não consegue explorar [o tema] do ponto de vista simbólico e eleitoral. Outro ponto importante que podemos destacar é o baixo apelo emocional do tema. Diferentemente de áreas como saúde, educação e segurança pública, o saneamento é uma pauta técnica, que exige maior esforço para engajar o eleitor. Soma-se a isso, em muitos casos, a própria “naturalização” do problema em regiões ou bairros historicamente desassistidos, o que reduz a pressão social sobre os gestores públicos”.

 

O Custo do Descaso

Não investir em saneamento é, literalmente, desperdiçar dinheiro em saúde. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçam que cada real investido em saneamento gera uma economia gigantesca em gastos com internações por doenças de veiculação hídrica.

Além do impacto direto na saúde pública, o meio ambiente sofre silenciosamente. A poluição de rios e mananciais compromete o futuro hídrico das cidades e encarece ainda mais o tratamento da água que chega às nossas torneiras.

 

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